A campainha anunciando a entrada dos alunos da escola pública
Martírio dos Mestres, toca. Em tropa, a 8ª. Cavalaria do regimento de
infantes avança desenfreada em gargalo, porta adentro da sala que lhe
fora destacada. Ainda no funil, passadas maliciosas de mãos, puxões de
cabelos, safanões, tapas, e chutes são desferidos em meio ao torvelinho.
Ao ocuparem a sala de aula a bandeira da permissividade é desfraldada
por alguns que sem noção de direito e civilidade comprometem o desejo
daqueles que se esmeram em busca das qualificações mínimas e necessárias
para se relacionarem em grupo.
Entre os ordinários um deles se destaca: Marcelo Tornado, um jovem rapaz
intragável que usa da avantajada compleição física e personalidade
atroz para impor seus desejos nocivos sobre aqueles que ele escolhe a
dedo para serem suas vítimas do que hoje costumeiramente chamam de
bullying. Entre as vítimas desta vez, pasmem, não está este ou aquele
aluno cujo perfil denota comportamento exemplar ou comprometimento com
os estudos. A “bola da vez” é o professor. Ante a confusão generalizada
na classe Célia Mormaço encoraja-se: – Bom dia! – enquanto poucos lhe
dão boas vindas, a maioria dentre os demais a ignora. O dia é realmente
abafado. O sol irradia a luz por entre os vidros das janelas que compõe
aquele espaço destinado a educação. De súbito, Cida Vendaval levanta-se
da carteira onde está posicionada e dirige-se ao interruptor que faz
funcionar o ventilador contendo três pás em forma de hélices. Aciona-o.
Enquanto isso, Mormaço tenta conter a balbúrdia. Neste mesmo instante,
aproveitando-se da distração da já apoquentada instrutora de língua
portuguesa, Tornado arremessa um estojo de acrílico contra o aparelho de
ventilar que gira na velocidade máxima.

Ouve-se um estampido. Estilhaços do que era um estojo de lápis,
apontador, borracha e canetas se espalham por todos os lados do reduto.
Para sorte dos alunos, apesar do susto, ninguém se fere. Ao ver a cena
que se segue com gritos e xingamentos da parte de alguns alunos contra o
vândalo, Mormaço não querendo atrair para si a animosidade de Marcelo
Tornado põe “panos quentes”, afinal é de seu feitio e ela sabe que não
se deve correr riscos com um aluno mentecapto. Os tempos mudaram, os
dispositivos legais é que não parecem acompanhar o ritmo tendencioso da
desordem. Assim, alinhando-se ao sistema, Célia Mormaço, desorientada
como quem pede uma trégua, ergue em punhos o estandarte da conivência. A
aula enfim, aos solavancos começa. Ela sobrescreve a matéria no
veterano quadro negro que é previamente dividido em três partes com
riscado de giz. Empunhando o bastonete de greda como arma para conter a
bagunça na sala, Mormaço dispara a escrever compulsivamente preenchendo
em poucos minutos as três páginas da lousa, que são apagadas e
reescritas sucessivamente por intermináveis cinqüenta minutos até que
sua obrigação naquela classe se dê por encerrada.
Dever cumprido recolhe a caixa de giz, a caneta vermelha, o material
didático e com o calor humano que lhe é peculiar, leva-os ao peito,
abraçando-os carinhosamente. Quando se prepara para sair, já na porta é
surpreendida por Marcelo Tornado. Enquanto ele a distrai com desculpas,
Marco Carrasco, seu comparsa nas sabotagens aproxima-se detrás da
professora com um isqueiro e acionando-o, ateia fogo no cabelo dela. –
Que fumaça é essa saindo da senhora? – Cínico, Tornado questiona-a com
sinal de espanto. Tomada pelo desespero Célia Mormaço grita sentindo o
ardor das chamuscas em sua cabeça no tempo em que Cida Vendaval a largos
sopros tenta extinguir já, as brasas. A diretora, a coordenadora, a
merendeira, o inspetor, os professores e alunos, todos que partilham do
suposto auspicioso lar da educação, tomam conhecimento do caso.
Resultado: Célia Mormaço é transferida de escola, pois a direção
entendeu que não era seguro para ela continuar naquele local. Após o
episódio, a reputação de Mormaço perante os que presenciaram o incidente
era de total escárnio naquela contemplada entidade do saber, Escola
Pública Martírio dos Mestres.
Hermes Machado é escritor paulistano que vive na Baixada
Santista. Antes de iniciar a carreira literária atuou como guia para
congressos nos Estados Unidos, foi executivo de empresas e gestor de
negócio próprio. É autor do romance Vitória na XXV, possui contos e
crônicas em sites e jornais impressos no Brasil e exterior.
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